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60 segundos


Soa o alarme de incêndio. Você tem 60 segundos para deixar o local, o que você levaria consigo?

Uma ideia um tanto quanto aleatória, não? Achei um tanto quanto curioso, estava eu, em pleno sábado a noite, esvaziando uma caixa de chocolates e assistindo à um filme que em algum momento falou disso. A parte curiosa, é que eu já me fiz essa pergunta centenas de vezes. Não, não estou brincando, quando eu era pequena e ficava divagando com meus ursinhos de pelúcia sobre tal fato, eu dizia que salvaria todos eles, e estaria feliz com isso. Você já pensou sobre isso? Entre todos os pertences do seu lar, você já pensou no que gostaria de salvar?
A sua vontade é de levar a casa inteira consigo, mas pense um pouco no que realmente importa.
Suas joias, o seu computador, celular? Os seus livros, CD's, as suas roupas? As fotos, as cartas? O cartão de crédito? Se apresse, você tem que sair da casa.
Eu pensei bastante, e ainda não sei. Só tenho a certeza de que levaria os meus bichinhos de pelúcia.

Um final diferente


A gelada noite chegara há tempos, o frio permanecia desde a manhã. Os carros passavam apressados pelas ruas num vai-e-vem incansável. O vento uivava e levava consigo as folhas caídas. Cachorros de rua passavam fuçando cada lixeira e cada amontoado de lixo da metrópole. Não, não era um local seguro para se estar, não à aquela hora. Lia desde cedo um clássico romance de velhas páginas e capa desgastada. Era um livro triste ao que me parecia, a moça chorava sem fazer som. A ponta do fino nariz estava tingida de vermelho, em um rosto tão alvo. Os olhos transbordavam incansavelmente. Estava em um banco, iluminado por um dos únicos postes que funcionavam, a luz a tingia de amarelo. Já estava tarde, eu me perguntava até quando a moça ficaria ali, era realmente perigoso para gente como ela. Gente que não vivia naquelas calçadas, como eu, ou como tantos outros. Por que ela estava ali se provavelmente teria uma casa quente e uma poltrona confortável a sua espera? Vai ver eu não entenderia os motivos dela. Eu deveria alertá-la? Ela teria medo de mim, ou talvez fosse maldade atrapalhar aquele momento tão íntimo.
Ela levantara. Oh sim, já era hora! O relógio no alto da torre marcava pouco mais das dez horas. Saiu languidamente, aparentemente em direção ao metrô, mas ela ia se distanciando a tal ponto que meus olhos cansados já não me permitiam vê-la. Curiosamente, ela deixara o velho livro em cima do banco. Fui em direção ao banco que me acomodaria durante a noite e peguei o livro. Obviamente, minha estupidez não me permitiu decifrar o que tantas letras miúdas diziam. Observei as tantas páginas por um tempo e por fim usei o livro para acomodar minha cabeça.
Na manhã seguinte perguntei a uma garotinha que fotografava a velha praça sobre do que se tratava o livro. Ela parou por um instante, hesitando em falar comigo, imagino. Por fim me respondeu, lendo a contra-capa, que era uma história de amor, que por sinal ela já havia lido. Tagarelou por minutos me explicando a triste história, em que no fim a garota ficava sozinha. Achei estranho, geralmente se fala em final feliz, mas deixei que ela concluísse. Olhando o livro, ela me disse que rasgaram a última página, e bem no cantinho, com letras bem caprichadas, estava escrito: "Eu quero um final diferente."
Agradeci à mocinha, que se despediu e foi embora. Carreguei o livro comigo por um tempo, e em um ensolarado dia de primavera, presenteei uma moça bonita, já de idade, que passava apressada por ali. Não a vi depois, nem o livro.
Muito tempo se passou, e um dia vi a garota chorosa passando por ali, que olhou para o banco somente por um momento e seguiu em frente.

Válvula de Escape


Eu quero sentir. A chuva escorrendo pelo meu rosto e pingando da ponta do meu nariz, o vento bagunçando e chicoteando o meu cabelo no meu rosto, o chão sob meus pés, o sol se impondo lá do alto, dando brilho a tudo, reluzindo em minha pele. Eu quero sentir. O meu coração acelerado, as palavras presas na garganta, a respiração ofegante. Eu quero sentir. O rosto se tornando rubro, o sorriso se formando, a lágrima brotar. Eu quero, eu preciso sentir. A sua pulsação, a sua mão segurando a minha, os seus olhos nos meus. Eu quero ser, eu quero sentir, eu quero viver, quero vir, quero ver.

A Menina Que Roubava Caixinhas De Leite



Eu, o sofá, uma almofada e a caixa de leite.

É curioso que depois de tantos anos eu não tenha esquecido algo tão bobo.
Eu deveria ter por volta de três ou quatro anos de idade, um projeto de ser humano. Naquele dia não havia muita gente em casa, alguém cozinhava. Fui até a cozinha, o apartamento era minúsculo, a cozinha era um corredor, não cabia muita gente lá, eu geralmente não era bem vinda na cozinha, mas quem quer que estivesse cozinhando, não se importou com a minha presença. Abri a geladeira e lá estava: uma bela caixinha de leite, aquelas longa vida, com leites processados à uma ultra alta temperatura; eu sei disso agora, naquele dia qualquer da década de 90, ela resumia-se somente à uma caixinha de leite comum, com a pontinha cortada; Então, olhei novamente para quem cozinhava, e ela parecia estar indiferente ao fato de eu estar na cozinha fazendo o que quer que seja, e então arrisquei a pegar a caixinha de leite. Eu não liguei se ela iria me mandar devolver, eu peguei. Deitei numa almofada sobre o sofá, cruzei minhas até então pequenas pernas e bebi o leite, sem copo mesmo, direto na caixinha. Ai de quem reclamasse. O leite de caixinha nunca estivera tão gostoso como naquele dia. O mundo girava em torno daquela estranha cena, o tempo sequer ousou passar, ninguém incomodou. Levantei-me languidamente, coloquei a caixa vazia em cima da pia, e saí com um estranho ar de triunfo da cozinha. O mundo nunca mais parou para que eu bebesse uma caixinha de leite só minha, aliás, ele nunca mais parou para que eu fizesse coisa alguma.

Where do they all come from?


O Lennon se perguntava "all the lonely people, where do they all come from?" e até hoje essa pergunta não foi respondida. Acho divertido cantarolar esse trecho de Eleanor Rigby, porque sei que eu sou uma eleanor rigby da vida, e penso o mesmo de você. Gosto também de pensar, que não chegamos ao trágico fim que o Lennon retrata nos versos tristes dessa música. Porque por alguma graça, coincidência ou consequência, ou qualquer outra ordem (ou a falta dela) que a natureza obedeça, tivemos a chance de nos encontrar. Talvez ainda sejamos tais qual a Eleanor Rigby, existem muitos e muitas tais qual ela pelo mundo. O bom é conhecer essas pessoas, e pensar de que elas vieram do nada, mas que a partir do momento que você a conhece e passa a amá-las, elas deixam de ser fulano vindo de lugar algum que vai para algum lugar, e passam a ser fulano que veio de lugar algum e que agora têm um lugar, caso ele não tenha pra onde ir, do lado esquerdo do nosso peito. E você sabe, você sente que mesmo sem poder oferecer nada de muito especial, você moverá montanhas e fará o impossível pra garantir o conforto desse estranho. Seja bem-vinda, garotinha complicada vinda de lugar algum, segure a minha mão, vamos em busca de um lugar que seja nosso. Caso a gente não ache, quem se importa? Temos uma à outra.

a vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância, diante da eternidade do amor de quem se ama.