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Dancing with the devil's past


Passado. Inconsistência, que num momento de ilusão nos parece concreto, e que sob um leve toque se desfaz. Este fantasma que nos acompanha, que faz questão de que olhemos para a face dele a todo tempo, que faz questão de que aprendamos a encará-lo com serenidade. Que nos tenta a todo momento a querer mergulhar em sua essência e ter de novo o que já se foi. Lembranças dançam em nossa frente, bailam sorridentes, tão convidativas... Mas você pisca os olhos e elas se foram. E de repente você se pega num momento tão bobo, alimentando a esperança vã de que um dia vá brincar de "era mais uma vez".
Tento lembrar-me a todo tempo de que o passado é um tanto matreiro, e que ficar encarando a sua face bloqueia a nossa visão do aqui e do agora. Mas é um tanto inevitável ficar admirando-o num momento de baixa guarda.

Doce Ironia


O ácido em minha saliva corrói a minha boca. O baixo pH da minha crítica, da minha revolta. Corrói pouco a pouco, destruindo e desgastando a minha garganta, já fraca do praguejar ignorado pela sociedade alienada, surda. O meu estômago já não atura tanto desgosto.
E em cada gota de absurdo, em cada pedaço de injustiça e hipocrisia que me empurram, a fortes punhos, goela abaixo, minha situação piora. Me sinto traída, envenenada pelo mundo que me abriga. Doce ironia.

Uma noite longa pra uma vida curta


Um quarto abafado com cheiro de xícara de café vazia, um lençol amarrotado, uma música tocando baixo. Um dia comum em todo o seu tédio e neutralidade. Fragilidade incidente, de dentro pra fora, lágrimas involuntárias. Consegue ver? Me diga que sim. Tente visualizar também o céu noturno que eu vejo por de trás dos vidros da janela. Uns aviõezinhos bem longe piscando, azul, vermelho, azul, vermelho. E o meu cabelo bagunçado, do jeito que você gosta, espalhado pelo travesseiro onde você esteve deitado, bem pertinho de mim. Consegue ver? Faça um esforço um pouco maior e enxergue dentro de mim. Consegue ver? Espero que sim.