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Beira Mar


Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
Em cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar

Além, muito além onde quero chegar
Caindo a noite me lançou no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar

Zé Ramalho

Um final diferente


A gelada noite chegara há tempos, o frio permanecia desde a manhã. Os carros passavam apressados pelas ruas num vai-e-vem incansável. O vento uivava e levava consigo as folhas caídas. Cachorros de rua passavam fuçando cada lixeira e cada amontoado de lixo da metrópole. Não, não era um local seguro para se estar, não à aquela hora. Lia desde cedo um clássico romance de velhas páginas e capa desgastada. Era um livro triste ao que me parecia, a moça chorava sem fazer som. A ponta do fino nariz estava tingida de vermelho, em um rosto tão alvo. Os olhos transbordavam incansavelmente. Estava em um banco, iluminado por um dos únicos postes que funcionavam, a luz a tingia de amarelo. Já estava tarde, eu me perguntava até quando a moça ficaria ali, era realmente perigoso para gente como ela. Gente que não vivia naquelas calçadas, como eu, ou como tantos outros. Por que ela estava ali se provavelmente teria uma casa quente e uma poltrona confortável a sua espera? Vai ver eu não entenderia os motivos dela. Eu deveria alertá-la? Ela teria medo de mim, ou talvez fosse maldade atrapalhar aquele momento tão íntimo.
Ela levantara. Oh sim, já era hora! O relógio no alto da torre marcava pouco mais das dez horas. Saiu languidamente, aparentemente em direção ao metrô, mas ela ia se distanciando a tal ponto que meus olhos cansados já não me permitiam vê-la. Curiosamente, ela deixara o velho livro em cima do banco. Fui em direção ao banco que me acomodaria durante a noite e peguei o livro. Obviamente, minha estupidez não me permitiu decifrar o que tantas letras miúdas diziam. Observei as tantas páginas por um tempo e por fim usei o livro para acomodar minha cabeça.
Na manhã seguinte perguntei a uma garotinha que fotografava a velha praça sobre do que se tratava o livro. Ela parou por um instante, hesitando em falar comigo, imagino. Por fim me respondeu, lendo a contra-capa, que era uma história de amor, que por sinal ela já havia lido. Tagarelou por minutos me explicando a triste história, em que no fim a garota ficava sozinha. Achei estranho, geralmente se fala em final feliz, mas deixei que ela concluísse. Olhando o livro, ela me disse que rasgaram a última página, e bem no cantinho, com letras bem caprichadas, estava escrito: "Eu quero um final diferente."
Agradeci à mocinha, que se despediu e foi embora. Carreguei o livro comigo por um tempo, e em um ensolarado dia de primavera, presenteei uma moça bonita, já de idade, que passava apressada por ali. Não a vi depois, nem o livro.
Muito tempo se passou, e um dia vi a garota chorosa passando por ali, que olhou para o banco somente por um momento e seguiu em frente.

Uma noite longa pra uma vida curta


Um quarto abafado com cheiro de xícara de café vazia, um lençol amarrotado, uma música tocando baixo. Um dia comum em todo o seu tédio e neutralidade. Fragilidade incidente, de dentro pra fora, lágrimas involuntárias. Consegue ver? Me diga que sim. Tente visualizar também o céu noturno que eu vejo por de trás dos vidros da janela. Uns aviõezinhos bem longe piscando, azul, vermelho, azul, vermelho. E o meu cabelo bagunçado, do jeito que você gosta, espalhado pelo travesseiro onde você esteve deitado, bem pertinho de mim. Consegue ver? Faça um esforço um pouco maior e enxergue dentro de mim. Consegue ver? Espero que sim.

Um dia qualquer (21 de março)

Domindo embalado pelas baladas românticas do Cazuza; o amável som da chuva, interrompido diversas vezes por raios imponentes e por muitos lenços de papel (resfriado). É a primeira chuva de verdade de março, não que exista alguma de mentira, mas para a época, era de se esperar mais. É outono, o equinócio teve início ontem. A essa hora eu deveria estar dormindo, mas estou jogando caligrafia fora. Visto um confortável pijama cinza, cinza tal qual o céu cheio de novens carregadas da manhã tempestuosa, e cinza tal qual o meu humor. Não associe cinza a algo triste, eu vejo o cinza como uma cor neutra. Não é branco, que ao meu ver seria a paz de espírito, uma alegre nuvem de um céu de verão, uma bolinha macia de algodão. Também não é preto, o vazio, o incerto, escuro, tal qual o breu janela afora. Cinza é o meio termo, é a mistura entre os extremos, é somente cinza. Tenho pensamentos brancos, felizes; tenho pensamentos negros, tristes. Opto então por não pensar em nada, opto por manter-me neutra, ou então, adentraria a madrugada a remoer e a imaginar infinitas situações, a vagar por tortuosos caminhos pelos quais minha confusa mente me carrega e isso requer paciência, e tempo, e amanhã eu acordo cedo, para mais um dia rotineiro, comum, neutro, mais um dia cinza no ano.
S.M.S, Beija-Flor.