Pensamento Avulso

Dizem que no amor e na guerra vale tudo. São duas coisas onde pessoas saem feridas. Muito feridas. E não me agrada correr o risco de ferir alguém. Sem estratégias, armas ou combates, que venha o general Tempo e resolva isso.

Puro, simples, forte.

Sorrir é a melhor coisa do mundo. Ai de quem duvide de mim. Como é muito do meu feitio, eis que vou argumentar para te provar que isso é verdade. Primeiramente, faz bem pra musculatura da face, você move alguns muitos músculos para sorrir. O sorriso é uma ótima primeira-impressão, as pessoas ficam mais bonitas ao sorriem! Sorrir demonstra felicidade, é provado cientificamente que a felicidade é uma forma de atrairmos seres da nossa espécie! O sorriso é puro, sincero, afinal, quem não sabe reconhecer um sorriso amarelo, sem graça? Sorrir faz com que as pessoas ao teu lado se sintam motivadas a sorrir (que nem bocejos, apesar de estes não serem bons), um sorriso pode significar tantas coisas! "Vá em frente!" "Quanto tempo!" "Obrigado" "Passei no vestibular" "Sem problemas" "Eu te amo", são só uns poucos exemplos. Se o sorriso não fosse bom, por que sorrimos quando as coisas vão bem? Nem sempre o ato de sorrir é fácil e natural. Como sorrir com tanta miséria, egoísmo, tristeza, gás carbônico, álgebra linear, prisão de ventre e desamor no mundo? E com tantos problemas, ao iluminar o teu semblante com um sorriso, tu provas ser um ser humano capaz de lutar contra isso, de ver que há uma solução, há um lado positivo e que o pior há de passar. Por que ainda choras, pequena?

A Menina Que Roubava Caixinhas De Leite



Eu, o sofá, uma almofada e a caixa de leite.

É curioso que depois de tantos anos eu não tenha esquecido algo tão bobo.
Eu deveria ter por volta de três ou quatro anos de idade, um projeto de ser humano. Naquele dia não havia muita gente em casa, alguém cozinhava. Fui até a cozinha, o apartamento era minúsculo, a cozinha era um corredor, não cabia muita gente lá, eu geralmente não era bem vinda na cozinha, mas quem quer que estivesse cozinhando, não se importou com a minha presença. Abri a geladeira e lá estava: uma bela caixinha de leite, aquelas longa vida, com leites processados à uma ultra alta temperatura; eu sei disso agora, naquele dia qualquer da década de 90, ela resumia-se somente à uma caixinha de leite comum, com a pontinha cortada; Então, olhei novamente para quem cozinhava, e ela parecia estar indiferente ao fato de eu estar na cozinha fazendo o que quer que seja, e então arrisquei a pegar a caixinha de leite. Eu não liguei se ela iria me mandar devolver, eu peguei. Deitei numa almofada sobre o sofá, cruzei minhas até então pequenas pernas e bebi o leite, sem copo mesmo, direto na caixinha. Ai de quem reclamasse. O leite de caixinha nunca estivera tão gostoso como naquele dia. O mundo girava em torno daquela estranha cena, o tempo sequer ousou passar, ninguém incomodou. Levantei-me languidamente, coloquei a caixa vazia em cima da pia, e saí com um estranho ar de triunfo da cozinha. O mundo nunca mais parou para que eu bebesse uma caixinha de leite só minha, aliás, ele nunca mais parou para que eu fizesse coisa alguma.

Where do they all come from?


O Lennon se perguntava "all the lonely people, where do they all come from?" e até hoje essa pergunta não foi respondida. Acho divertido cantarolar esse trecho de Eleanor Rigby, porque sei que eu sou uma eleanor rigby da vida, e penso o mesmo de você. Gosto também de pensar, que não chegamos ao trágico fim que o Lennon retrata nos versos tristes dessa música. Porque por alguma graça, coincidência ou consequência, ou qualquer outra ordem (ou a falta dela) que a natureza obedeça, tivemos a chance de nos encontrar. Talvez ainda sejamos tais qual a Eleanor Rigby, existem muitos e muitas tais qual ela pelo mundo. O bom é conhecer essas pessoas, e pensar de que elas vieram do nada, mas que a partir do momento que você a conhece e passa a amá-las, elas deixam de ser fulano vindo de lugar algum que vai para algum lugar, e passam a ser fulano que veio de lugar algum e que agora têm um lugar, caso ele não tenha pra onde ir, do lado esquerdo do nosso peito. E você sabe, você sente que mesmo sem poder oferecer nada de muito especial, você moverá montanhas e fará o impossível pra garantir o conforto desse estranho. Seja bem-vinda, garotinha complicada vinda de lugar algum, segure a minha mão, vamos em busca de um lugar que seja nosso. Caso a gente não ache, quem se importa? Temos uma à outra.

a vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância, diante da eternidade do amor de quem se ama.

Um dia qualquer (21 de março)

Domindo embalado pelas baladas românticas do Cazuza; o amável som da chuva, interrompido diversas vezes por raios imponentes e por muitos lenços de papel (resfriado). É a primeira chuva de verdade de março, não que exista alguma de mentira, mas para a época, era de se esperar mais. É outono, o equinócio teve início ontem. A essa hora eu deveria estar dormindo, mas estou jogando caligrafia fora. Visto um confortável pijama cinza, cinza tal qual o céu cheio de novens carregadas da manhã tempestuosa, e cinza tal qual o meu humor. Não associe cinza a algo triste, eu vejo o cinza como uma cor neutra. Não é branco, que ao meu ver seria a paz de espírito, uma alegre nuvem de um céu de verão, uma bolinha macia de algodão. Também não é preto, o vazio, o incerto, escuro, tal qual o breu janela afora. Cinza é o meio termo, é a mistura entre os extremos, é somente cinza. Tenho pensamentos brancos, felizes; tenho pensamentos negros, tristes. Opto então por não pensar em nada, opto por manter-me neutra, ou então, adentraria a madrugada a remoer e a imaginar infinitas situações, a vagar por tortuosos caminhos pelos quais minha confusa mente me carrega e isso requer paciência, e tempo, e amanhã eu acordo cedo, para mais um dia rotineiro, comum, neutro, mais um dia cinza no ano.
S.M.S, Beija-Flor.

Tal qual a luz da lua


As ruas, as calçadas, as árvores, as pedras, as poças, a lua rechonchuda tinge de prata, lá do alto, aquele momento. Ela pinta nossos rostos, a brisa que brinca com nossos cabelos, os nossos pés descalços que nos levam sem nossa concessão para lugar nenhum. Ela pinta os nossos sorrisos, o calor do nosso hálito que é visível graças à noite fria, até as mais banais palavras ditas. E não importa para onde a gente ande, corra, se esconda, ela nos segue, banhando nosso pequeno pedaço de mundo em monocor. Eu, você e tudo que nos envolve. A felicidade é prata, tal qual a luz da lua.

Em cima do telhado o ar é tão frio e tão calmo, eu digo o seu nome em silêncio, mas você não quer ouvi-lo agora. Os olhos da cidade estão contando as lágrimas que caem, cada lágrima é uma promessa de tudo que você nunca saberá.