Uma noite longa pra uma vida curta
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julia.braga-

Um quarto abafado com cheiro de xícara de café vazia, um lençol amarrotado, uma música tocando baixo. Um dia comum em todo o seu tédio e neutralidade. Fragilidade incidente, de dentro pra fora, lágrimas involuntárias. Consegue ver? Me diga que sim. Tente visualizar também o céu noturno que eu vejo por de trás dos vidros da janela. Uns aviõezinhos bem longe piscando, azul, vermelho, azul, vermelho. E o meu cabelo bagunçado, do jeito que você gosta, espalhado pelo travesseiro onde você esteve deitado, bem pertinho de mim. Consegue ver? Faça um esforço um pouco maior e enxergue dentro de mim. Consegue ver? Espero que sim.
Mundos à parte
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julia.braga-

Você sabe do que um ser humano é capaz? Ele é capaz de mentir, de desrespeitar, humilhar, machucar. Ele é capaz de roubar, matar. Ele é capaz de destruir o próprio planeta. Ele é capaz de criar barreiras entre seus iguais. Ele é capaz de matar inocentes, de inocentar criminosos. Você realmente sabe do que um ser humano é capaz?
O ser humano é capaz de parar um tanque de guerra, de derrubar um regime, de criar uma rebelião, uma religião. O ser humano é capaz de lançar uma ideologia, de descobrir uma cura, de resolver uma equação algébrica. Ele é capaz de perdoar. Você realmente sabe do que um ser humano é capaz?
O ser humano é dotado de enorme capacidade, físico e mental. Tão grande que este mesmo a desconhece. O ser humano não foi feito para ser bom. O ser humano não foi feito para ser mau. O ser humano foi feito de maneira detalhista e complexa, e dotado de enorme força, energia, capacidade, vontade, inteligência. Foi dado a ele o livre arbítrio, para que este utilize sua inteligência e sensatez para decidir por si só as melhores decisões a serem tomadas. Ele responde por suas escolhas, ele sofre as consequências.
Você sabe do que um ser humano é capaz? Mais do que física, mais do que química, o ser humano pensa, sente. Um ser humano é capaz de amar.
Brinquedos tortos
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julia.braga-

Uma garotinha brinca na praça em um ensolarado e agradável dia de primavera, não há ninguém ao seu lado mas ela tagarela e descorre sobre uma infinidade de fatos com o vento. De mão dadas com um ursinho com seu eterno sorriso, ela vai caminhando e conversando, parando para pegar flores, folhinhas, analisar insetos. Já não é mais o meu tempo de ter amigos imaginários, de conversar com os meus brinquedos. Um vazio imenso toma conta de mim, a carência já não é mais facilmente preenchida com uma boneca, imaginar um planeta só meu com unicórinios e fadinhas já não funciona, pelo menos, não pelo tempo desejável. Seja por uma questão biológica e/ou emocional, me sinto solitária. Eu invejo aquela garotinha baixinha e ruiva, ela parece tão feliz, nem se aproxima das outras crianças que correm em volta das árvores, ela está satisfeita. Eu acabo preenchendo o meu vazio enchendo os outros. Durante os anos que se passaram, meus ursinhos ficaram surdos.
When The Wind Blows
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Crime
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julia.braga-

Teus olhos atravessam a despreocupada multidão em busca dos meus, eu sinto isso. Não sei se isso deveria acontecer, mas eles encontram o alvo. Tiros certeiros de centenas de milhares de verbos, advérbios, muitas conjunções, reticências e interrogações conseguem me acertar a uma distância enorme. Como se estivéssemos cometendo um crime, e como se todos aqueles inocentes ao nosso redor pudessem testemunhar, ambos desviamos nossos olhares.
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